Saberes que Resistiram ao Tempo: Mestres da Cultura Popular são Celebrados no Recôncavo Baiano

O Recôncavo da Bahia voltou a se afirmar como um dos principais territórios de preservação da cultura popular brasileira ao sediar um grande evento dedicado a homenagear mestres e mestras responsáveis pela manutenção de saberes ancestrais. Em espaços públicos de Santo Amaro e Cachoeira, a iniciativa reuniu comunidade, artistas, pesquisadores e visitantes em uma programação gratuita marcada por celebração, memória e resistência cultural.

O encontro teve como eixo central o reconhecimento de homens e mulheres que dedicaram suas vidas à transmissão de expressões como a capoeira, o samba de roda, a chula e práticas religiosas de matriz africana. Mais do que uma agenda festiva, o evento se consolidou como um gesto político e simbólico de valorização do patrimônio imaterial, reforçando o papel desses mestres como guardiões da identidade cultural baiana.

Um dos momentos mais marcantes foi a cerimônia de homenagem que entregou o Troféu Sankofa, símbolo que remete à importância de olhar para o passado como forma de compreender o presente e construir o futuro. O prêmio foi concedido a oito mestres e mestras cujas trajetórias são referências no Recôncavo e fora dele, reconhecidos pelo compromisso com a preservação e o ensino de práticas tradicionais.

Entre os homenageados esteve Mestre Bigo, referência da Capoeira Angola, cuja atuação é marcada pela defesa dos fundamentos históricos e filosóficos da manifestação. No campo do samba de roda e da chula, nomes como Mestre Domingo Preto e Mestre Aurino de Maracangalha foram reconhecidos por manter vivas expressões musicais profundamente ligadas à vida comunitária.

A presença feminina teve destaque com a homenagem a Dona Maninha, símbolo de longevidade e resistência cultural, e Lindaura da Boa Morte, liderança histórica da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, cuja atuação ultrapassa o campo religioso e se inscreve na luta pela afirmação da cultura afro-brasileira. Também foram celebradas Dona Dalva, reconhecida pela força poética de suas composições, e Dona Rita da Barquinha, ligada a manifestações culturais associadas à fé e ao mar.

A programação se espalhou por praças, ruas e espaços históricos, oferecendo ao público oficinas, rodas de capoeira, apresentações de samba de roda, vivências com mestres, ações educativas e atividades voltadas à economia criativa e à gastronomia local. O formato permitiu uma experiência imersiva, aproximando gerações e promovendo o contato direto com os saberes tradicionais.

Além das atividades artísticas, o evento também abriu espaço para debates e encontros entre mestres e estudiosos da cultura popular, fortalecendo o diálogo entre conhecimento acadêmico e saberes orais. A proposta foi reafirmar que essas expressões não pertencem apenas ao passado, mas seguem vivas, em constante transformação.

Ao homenagear seus mestres em vida, o Recôncavo baiano reafirma sua vocação como território de resistência cultural. A celebração vai além do reconhecimento individual e se transforma em um chamado coletivo para que a memória, a ancestralidade e a cultura popular sigam ocupando lugar central na construção da identidade brasileira.